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segunda-feira, 11 de março de 2013

Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz,

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Carlos Chagas: infância, primeiros estudos e formação médica


Simone Petraglia Kropf
Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, Expansão, 20040-361, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Carlos Ribeiro Justiniano Chagas, primeiro dos quatro filhos de José Justiniano Chagas e Mariana Cândida Ribeiro Chagas, nasceu aos 9 de julho de 1878, na Fazenda Bom Retiro, próximo à pequena cidade de Oliveira, Minas Gerais. Seus antepassados, de origem portuguesa, tinham se estabelecido na região havia quase um século e meio. Órfão de pai aos quatro anos, Chagas passou a infância nessa e em outra fazenda da família, em Juiz de Fora, onde sua mãe administrava o cultivo do café. Embora distante dos centros ilustrados do país, a convivência com os tios maternos (dois advogados e um médico) fez com que o menino manifestasse, desde cedo, vontade de avançar nos estudos, com particular interesse pela medicina.

Carlos Chagas aos quatro anos. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

Fazenda Bom Retiro, localizada próximo a Oliveira (Minas Gerais), onde nasceu Carlos Chagas. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 
José Justiniano Chagas e Mariana Cândida Ribeiro Chagas, pais de Carlos Chagas. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

Aos oito anos, alfabetizado, foi matriculado no Colégio São Luís, internato dirigido por jesuítas em Itu, interior de São Paulo. Mas não ficaria ali por muito tempo. Em maio de 1888, ao ter notícias de que os escravos recém-libertados estariam depredando fazendas, fugiu do colégio para ir ao encontro de sua mãe. A indisciplina foi punida com a expulsão e o menino transferiu-se para o Ginásio São Francisco, em São João del Rey, Minas Gerais. Concluídos os estudos, sua mãe decidiu que ele deveria formar-se em engenharia. Em 1895, ingressou então no curso preparatório da Escola de Minas de Ouro Preto, tradicional centro de ensino superior. Contudo, os excessos da vida boêmia custaram-lhe a reprovação nos exames e o retorno a Oliveira. Com a ajuda do tio médico, venceu a resistência da mãe e mudou-se para a capital federal, para estudar medicina.
No Rio de Janeiro, foi morar com outros estudantes mineiros numa pensão no bairro da Tijuca. Em abril de 1897, matriculou-se na Faculdade de Medicina, na rua de Santa Luzia, centro da cidade. Chagas impressionou-se vivamente com a agitação política da capital. O governo de Prudente de Morais (1894-1898), primeiro presidente civil da República, buscava superar as turbulências e conflitos que vinham sacudindo o novo regime, como a revolta de Canudos, no interior da Bahia. O governo de Campos Sales (1898-1902) selaria a estabilização política e econômica e estabeleceria as bases da tão propalada modernização republicana.
Do ponto de vista cultural, a cidade também vivia um momento de grande efervescência. O jovem estudante, que assistira logo ao chegar à criação da Academia Brasileira de Letras, ficou entusiasmado com os novos escritores e estilos que se projetavam na cena literária. Nos diversos espaços intelectuais, disseminava-se a crença de que se vivia um novo tempo, simbolicamente expresso no novo século que se aproximava, em que o Brasil ingressaria no rol das nações “civilizadas”. Sob os valores do positivismo e outras teorias cientificistas, a ciência e a técnica eram exaltadas, pela chamada geração de 1870, como elementos norteadores de um saber objetivo e eficaz, capaz de prover o bem-estar moral e material da sociedade.
Foi sob esta perspectiva que médicos e engenheiros engajaram-se em pensar soluções para as precárias condições sanitárias da capital federal, agravadas naquele final de século em função do próprio ritmo da modernização urbana. As freqüentes epidemias, sobretudo de febre amarela, que assolavam a zona portuária e o centro da cidade, traziam fortes prejuízos às atividades econômicas, concentradas na exportação de café e outros produtos agrícolas e na importação de manufaturas e capitais. O saneamento urbano era visto como crucial para o progresso do país e, com esse objetivo, preparava-se a reforma da cidade que seria realizada nos primeiros anos do século XX.
Foi nesse contexto que se deu a difusão, no país, da microbiologia, num processo marcado por controvérsias, debates e acomodações entre os que aderiam às concepções de Louis Pasteur e Robert Koch e os que defendiam as teorias climatológicas da tradição higienista. A institucionalização da medicina tropical na Europa, no contexto de expansão dos interesses imperialistas, gerava novos conhecimentos sobre o modo de transmissão de doenças infecciosas como a malária e a febre amarela, especialmente sobre o papel dos insetos como vetores.
Em consonância com esta renovação das ciências biomédicas, vários professores da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro defendiam, desde a década de 1880, a importância de incorporar ao ensino os preceitos e práticas da chamada medicina experimental, ou seja, da pesquisa científica realizada no laboratório em busca de novos conhecimentos. Este foi o ambiente em que Chagas realizou seu curso médico, entre 1897 e 1903.
Dois professores marcaram de maneira decisiva sua formação. Um deles foi Miguel Couto, com quem Chagas aprendeu a utilizar os métodos e princípios da medicina experimental para o diagnóstico e o estudo clínico das doenças que compunham a nosologia brasileira. Couto, de quem Chagas se tornaria amigo pessoal, incutiu no jovem estudante a concepção de que a clínica médica deveria ser renovada e subsidiada pelos novos conhecimentos e técnicas propiciados pelas pesquisas científicas. Por sua sugestão, Chagas conheceu as obras de Claude Bernard e de Louis Pasteur.
Outra influência decisiva foi a de Francisco Fajardo, um dos pioneiros da microbiologia no Brasil, que apresentou a Chagas os temas específicos da medicina tropical. Profundamente sintonizado com os estudos e problemáticas peculiares a esta disciplina, especialmente no que dizia respeito à malária, Fajardo colecionava insetos sugadores de sangue e realizava estudos experimentais sobre o ciclo evolutivo do hematozoário descoberto por Laveran, com quem mantinha contatos pessoais. No laboratório de Fajardo, no Hospital da Santa Casa de Misericórdia, Chagas auxiliava a realização de exames hematológicos e a identificação das diferentes espécies do parasito da malária, base para o diagnóstico diferencial das várias formas clínicas da doença. Com o tempo, acumulou material para suas próprias experiências.
Com o objetivo de elaborar sua tese de doutoramento, pré-requisito à qualificação para o exercício da medicina, dirigiu-se em 1902 ao Instituto Soroterápico Federal, em Manguinhos. Levou uma carta de apresentação de Fajardo a Oswaldo Cruz, diretor técnico do Instituto, criado dois anos antes para fabricar soro e vacina contra a peste bubônica. Dava-se assim o primeiro contato com aquele que seria seu grande mestre e com a instituição na qual realizaria sua vida profissional.
O Instituto de Manguinhos – que a partir de 1908, sob a denominação de Instituto Oswaldo Cruz, se consolidaria como respeitado centro de produção de imunobiológicos e de pesquisa e ensino no âmbito da medicina experimental – atraía os estudantes interessados, como Chagas, no estudo científico das doenças tropicais. Aceito por Oswaldo Cruz, que tornou-se seu orientador, Chagas passou a freqüentar o Instituto diariamente. Em 1903, defendeu sua tese de doutoramento, intitulada Estudos hematológicos no impaludismo, analisando a importância dos conhecimentos sobre o ciclo evolutivo do plasmódio para o diagnóstico e o tratamento das várias formas clínicas da malária.
Apesar do convite feito por Oswaldo Cruz para integrar a equipe de pesquisadores de Manguinhos, Chagas preferiu dedicar-se à clínica. Em 1904, foi nomeado médico da Diretoria Geral de Saúde Pública, passando a trabalhar no hospital de isolamento de Jurujuba, Niterói, destinado a atender, sobretudo, doentes de peste. Ao mesmo tempo, instalou seu consultório particular no centro do Rio. Em julho daquele ano, casou-se com Íris Lobo, filha do senador mineiro Fernando Lobo Leite Pereira. Dessa união nasceriam Evandro Chagas, em 1905, e Carlos Chagas Filho, em 1910. No ano seguinte, o convite feito por Cruz para chefiar uma campanha de profilaxia da malária seria o primeiro passo de uma reorientação em sua carreira, que o conduziria de volta aos laboratórios de Manguinhos e à descoberta da doença que leva seu nome.


Íris Lobo Chagas e seus dois filhos, Carlos Chagas Filho e Evandro Chagas. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

Carlos Chagas e a descoberta de uma nova tripanossomíase humana


Simone Petraglia Kropf
Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, Expansão, 20040-361, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Em junho de 1907, Carlos Chagas foi designado por Oswaldo Cruz, que chefiava o Instituto de Manguinhos e a Diretoria Geral de Saúde Pública, para combater uma epidemia de malária que paralisava as obras de prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil em Minas Gerais, na região do rio das Velhas, entre Corinto e Pirapora. No povoado de São Gonçalo das Tabocas (onde se construía uma estação da ferrovia e que, com a inauguração desta em 1908, ganharia o nome de Lassance, em homenagem a um engenheiro da Central do Brasil), ele instalou um pequeno laboratório num vagão de trem, que também usava como dormitório. Enquanto coordenava a campanha de profilaxia, coletava espécies da fauna brasileira, motivado por seu crescente interesse pela entomologia e pela protozoologia. Num contexto de difusão internacional das teorias da medicina tropical, estas eram áreas que assumiam grande importância no projeto de Oswaldo Cruz de transformar o Instituto de Manguinhos num renomado centro de medicina experimental. Em 1908, ao examinar o sangue de um sagüi, Chagas identificou um protozoário do gênero Trypanosoma, que batizou de Trypanosoma minasense. A nova espécie era um parasito habitual, não patogênico, do macaco. 

Estação da Estrada de Ferro Central do Brasil em Lassance, Minas Gerais. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

Carlos Chagas e Belisário Penna no prédio da Estrada de Ferro Central do Brasil. Lassance, [1908]. Penna é o primeiro da direita para a esquerda, seguido de Chagas. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz.


            Naquele período, o estudo dos tripanossomas atraía a atenção dos pesquisadores no campo da medicina tropical, especialmente depois que se comprovou que, além de doenças animais, tais protozoários causavam enfermidades humanas, como a tripanossomíase africana. Tradicionalmente conhecida como doença do sono, esta enfermidade causava grande preocupação entre os países europeus que tinham colônias naquele continente.
Além da busca de novos parasitos, Chagas estava atento a artrópodes que pudessem servir-lhes de vetores. Numa viagem a Pirapora, ele e Belisário Penna (seu companheiro na missão de combate à malária) pernoitaram, junto com os engenheiros da ferrovia, num rancho às margens do riacho Buriti Pequeno. O chefe da comissão de engenheiros, Cornélio Homem Cantarino Mota, mostrou-lhes então um percevejo hematófago muito comum na região, conhecido vulgarmente como barbeiro, pelo hábito de picar o rosto de suas vítimas enquanto dormiam. Era abundante nas choupanas de pau-a-pique da região, escondendo-se nas frestas e buracos das paredes de barro durante o dia e atacando seus moradores à noite.

Carlos Chagas e Belisário Penna com a equipe que trabalhava no prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil, na região do rio das Velhas, Minas Gerais. [1908]. Sentados, da direita para a esquerda: Carlos Chagas, Belisário Penna, Cornélio Homem Cantarino Mota - chefe da comissão de engenheiros - e o médico Bahia da Rocha. Em pé, os engenheiros Amaral Teborge, José de Oliveira Fonseca e Joaquim Silvério de Castro Barbosa. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

Cafua em Lassance. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.


Sabendo da importância dos insetos sugadores de sangue como transmissores de doenças parasitárias, Chagas examinou alguns barbeiros e encontrou em seu intestino formas flageladas de um protozoário, com certas características que o fizeram pensar que poderia tratar-se de um parasito natural do inseto ou então de uma fase evolutiva de um tripanossoma de vertebrado. No caso desta segunda hipótese, poderia ser o próprio T. minasense, sendo o barbeiro o vetor que o transmitiria aos sagüis.

O barbeiro. Estampa de Castro Silva, publicada em: Chagas, Carlos. “Nova tripanossomíase humana. Estudos sobre a morfologia e o ciclo evolutivo do Schizotrypanum cruzi n. gen., n. sp., agente etiológico de nova entidade mórbida do homem”, Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, 1(2): 159-218, agosto de 1909.


Por não dispor em Lassance de condições laboratoriais para elucidar a questão, uma vez que os macacos da região estavam infectados pelo minasense, Chagas enviou a Manguinhos alguns daqueles insetos. Oswaldo Cruz os fez se alimentarem em sagüis criados em laboratórios (e portanto livres de qualquer infecção) e, cerca de um mês depois, comunicou a Chagas que encontrara formas de tripanossoma no sangue de um dos animais, que havia adoecido. Voltando ao Instituto, Chagas constatou que o protozoário não era o T. minasense, mas uma nova espécie de tripanossoma, que batizou então de Trypanosoma cruzi, em homenagem ao mestre. A nota anunciando esta descoberta foi redigida em Manguinhos em 17 de dezembro de 1908 e publicada na revista do Instituto de Doenças Tropicais de Hamburgo (Archiff für Schiffs-und Tropen-Hygiene), no início de 1909.

Vista de Lassance tomada do alto de um vagão da Estrada de Ferro Central do Brasil. Lassance, 1909. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.


Em Manguinhos, Chagas iniciou estudos sistemáticos sobre o ciclo evolutivo do novo parasito que, em cumprimento a dois dos postulados de Koch, mostrou-se capaz de infectar experimentalmente cães, cobaias e coelhos e de ser cultivado em agar-sangue. O barbeiro, por sua vez, passou a ser minuciosamente investigado por Arthur Neiva, também pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz. Em busca de outros hospedeiros vertebrados do T. cruzi e suspeitando que o homem pudesse ser um deles – hipótese reforçada por seus conhecimentos sobre a malária, também transmitida por um inseto hematófago domiciliário e causada por um hematozoário –, Chagas retornou a Lassance. Sobre o raciocínio que empreendeu naquele momento, relatou, em trabalho publicado na revista Brasil Médico em 1910:

“Leváramos, como idéia diretriz, a noção de constituírem os domicílios humanos o habitat predileto, senão exclusivo, do hematófago, assim como o fato, amplamente verificado, de ser o sangue humano a alimentação por excelência dele. Seria razoável pensar, daí, numa condição infectuosa intra-domiciliária e que o vertebrado hospedeiro do parasito fosse algum animal doméstico ou o próprio homem”.

Esta hipótese também explicaria certos fenômenos mórbidos que havia observado na região e que não se encaixavam no quadro nosológico conhecido.
            Em Lassance, Chagas empreendeu exames sistemáticos de sangue nos moradores. Ao examinar animais domésticos, verificou a presença do T. cruzi no sangue de um gato. No dia 14 de abril de 1909, encontrou finalmente o parasito no sangue de uma criança febril. Em nota prévia publicada no Brasil Médico, uma das principais revistas médicas do país, anunciou a descoberta:

“Num doente febricitante, profundamente anemiado e com edemas, com plêiades ganglionares engurgitadas, encontramos tripanossomas, cuja morfologia é idêntica à do Trypanosoma cruzi. Na ausência de qualquer outra etiologia para os sintomas mórbidos observados e ainda de acordo com a experimentação anterior em animais, julgamos tratar-se de uma tripanossomíase humana, moléstia ocasionada pelo Trypanosoma cruzi, cujo transmissor é o Conorrhinus sanguissuga”.  
            
Estágios do Trypanosoma cruzi. Estampa de Castro Silva, publicada em: Chagas, Carlos. “Nova tripanossomíase humana. Estudos sobre a morfologia e o ciclo evolutivo do Schizotrypanum cruzi n. gen., n. sp., agente etiológico de nova entidade mórbida do homem”, Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, 1(2): 159-218, agosto de 1909.


Berenice, uma menina de dois anos, era o primeiro caso daquela que seria considerada a partir de então uma nova doença humana. O fato foi divulgado também mediante publicações nos Archiff für Schiffs-und Tropen-Hygiene e no Bulletin de la Société de Pathologie Éxotique.
           Aos 22 de abril, ao mesmo tempo em que o Brasil Médico trazia em suas páginas a descoberta feita no norte de Minas, o feito foi comunicado, em sessão da Academia Nacional de Medicina, por Oswaldo Cruz, que leu um trabalho escrito por Chagas. A imprensa deu destaque ao episódio, reverenciado como uma das “glórias de Manguinhos”.
A descoberta e os primeiros estudos da nova entidade mórbida tiveram um impacto decisivo na carreira científica de Chagas, que alcançou grande proeminência no mundo científico, com efeitos diretos em sua inserção na vida institucional de Manguinhos. Em março de 1910, Oswaldo Cruz realizou concurso para preencher a vaga de “chefe de serviço” aberta com a saída de Henrique da Rocha Lima. Este foi um evento de grande importância para a instituição, pois o ocupante do cargo era visto como o mais provável candidato à sucessão de Oswaldo Cruz. Chagas obteve a primeira colocação e os trabalhos que havia publicado sobre a nova doença tiveram grande peso para tanto. 
   
Carlos Chagas atendendo a menina Rita. Lassance, início da década de 1910. Por muito tempo pensou-se que tal menina era Berenice, o primeiro caso identificado da nova doença. Ao fundo, vê-se o vagão da Estrada de Ferro Central do Brasil, que lhe servia de alojamento e laboratório em Lassance. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.


Em 26 de outubro de 1910, Chagas foi admitido solenemente como membro titular da Academia Nacional de Medicina, onde proferiu uma conferência apresentando seus estudos clínicos e farto material sobre a doença, inclusive imagens cinematográficas feitas em Lassance. No ano seguinte, um evento marcou a divulgação da descoberta e da nova doença no cenário científico internacional. No pavilhão brasileiro da Exposição Internacional de Higiene e Demografia, realizada em Dresden, Alemanha, a doença de Chagas foi apresentada com destaque, despertando grande interesse do público. Tal projeção expressava a importância que o tema assumia como carro-chefe e vitrine das pesquisas do Instituto Oswaldo Cruz. Outro marco importante da repercussão internacional da descoberta foi a conquista, por Chagas, em 1912, do Prêmio Schaudinn, concedido de quatro em quatro anos pelo Instituto de Doenças Tropicais de Hamburgo ao melhor trabalho em protozoologia.

Sala do pavilhão brasileiro na Exposição Internacional de Higiene e Demografia, realizada em junho de 1911 em Dresden, Alemanha. Dresden, junho de 1911. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

Diploma do Prêmio Schaudinn, conferido a Carlos Chagas pelo Instituto de Moléstias Tropicais de Hamburgo, Alemanha. Hamburgo, 22 jun. 1912. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.


Graças à repercussão da descoberta e dos estudos de Chagas, Oswaldo Cruz obteve junto ao governo federal verbas especiais para equipar um pequeno hospital em Lassance, visando sediar os estudos clínicos sobre a nova doença, e para dar início, em Manguinhos, à construção de um hospital destinado às pesquisas e acompanhamento dos casos clínicos identificados no norte de Minas Gerais e em outras regiões do país. Sob a liderança de Chagas e com a colaboração de vários pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (como Gaspar Vianna, Arthur Neiva, Astrogildo Machado, Eurico Villela, Carlos Bastos de Magarinos Torres, entre outros), a nova tripanossomíase passou a ser estudada em seus vários aspectos, como as características biológicas do vetor, do parasito e de seu ciclo evolutivo, o quadro clínico e a patogenia, as características epidemiológicas, os mecanismos de transmissão e as técnicas de diagnóstico.

Hospital em Lassance. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

Carlos Chagas e pacientes no Hospital Oswaldo Cruz, em Manguinhos. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.


Assumindo centralidade na agenda de pesquisas do Instituto Oswaldo Cruz e no próprio processo de institucionalização da atividade científica no país, a descoberta da doença de Chagas passou a ser tratada pelos contemporâneos e pela memorialística médica, até o presente, como um mito glorificador da ciência brasileira. Uma das considerações que se tornariam mais recorrentes quanto à importância da descoberta como “feito único” da ciência nacional foi o caráter incomum da seqüência sob a qual ela ocorreu, já que se partiu da identificação do vetor e do agente causal para em seguida determinar a doença a eles associada. Outro aspecto singular foi o fato de o mesmo pesquisador haver descoberto, num curto intervalo de tempo, um novo vetor, um novo parasito e uma nova entidade mórbida.
A historiografia sobre a descoberta da doença de Chagas ressalta sua inscrição no contexto de afirmação e institucionalização da medicina tropical européia, tanto em função dos referenciais teóricos que a viabilizaram, quanto pela contribuição que a própria descoberta trouxe para a consolidação da nova especialidade médica criada na Inglaterra por Patrick Manson nos últimos anos do século XIX. Sá (2005) aponta, por exemplo, a importância do estudo do T. cruzi para a elucidação de questões relativas à relação parasito-vetor no caso das infecções causadas por tripanossomas. 
Outro aspecto salientado pelos historiadores é a importância da descoberta como fonte de legitimação, visibilidade e recursos – materiais e simbólicos – para o Instituto Oswaldo Cruz. Stepan (1976), Benchimol e Teixeira (1993) enfatizam que ela propiciou a consolidação da protozoologia como área de concentração das pesquisas na instituição e impulsionou o seu reconhecimento na comunidade científica internacional como renomado centro de investigação sobre doenças tropicais. Kropf (2006) chama a atenção para que se, por um lado, a descoberta contribuiu para dar sentido e reforçar o projeto institucional de Manguinhos, ela própria ganhou sentidos particulares como “grande feito da ciência nacional” em função dos significados associados a este projeto, que se apresentava publicamente como destinado a associar excelência acadêmica e compromisso social em identificar e solucionar os problemas sanitários do país.

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